quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Banho Quente


Desde que me entendo por gente lembro de sentar no chão do banheiro enquanto minha mãe tomava banho. Era quando conversávamos sobre o dia e nossos dilemas cotidianos.

Lembro de reclamar que a água estava muito quente, que faria mal para a pele dela. Lembro de querer que ela desligasse a água, para evitar o desperdício, ao que ela me respondia “só mais um minuto”, ou então “conta até dez (devagar) que eu já desligo”.

Hoje meu dia termina num banho escaldante (e recebo as mesmas críticas sobre o “fazer mal para a pele”… só sorrio… e peço mais um minuto). Minha mãe sempre me disse: quando você for mãe você vai entender. Eu sempre pensei que ela estava me rogando algum tipo de praga, para me punir por eventuais más condutas. Mas não… ela apenas atestava a minha total ignorância.

Agora eu entendo o banho quente… que traz um conforto a essa solidão que se instala quando tornamo-nos mães. Solidão essa seguida de medo. Não que eu esteja sozinha (por Deus, com duas crianças pequenas eu bem que queria uns momentos só meus!). Não é esse tipo de solidão…

Refiro-me a esse peso que vem com a maternidade, essa responsabilidade enorme que literalmente sentimos nos ombros, a incerteza, a insegurança de estar fazendo as coisas certas, as escolhas certas. Essa dualidade de querer respirar e ao mesmo tempo sentir saudades.

Toda essa pressão só se dissolve com um banho bem quente, que traz algum conforto, como um abraço antes de dormir para permitir mais um dia, mais uma batalha, nessa vida que segue mesmo sem querermos, que não espera a gente acabar de ler as regras, mesmo por que não há regras. Há sua intuição, baseada em milênios de vivências anteriores, filtradas por tentativa e erro e repassadas imediatamente pelas mães, guardiãs da humanidade.

A vida vai passando e a sensação que tenho é que estou sempre atrasada, sempre correndo atrás. Acho que nunca vou alcançar esse trem. Vou viver cansada, recarregando energias para o próximo dia nos meus banhos quentes. 

PS: Passei um ano inteiro sem postar??? OMG!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O Segundo Filho


Cá estou eu, de volta ao setor de obstetrícia da policlínica. Nunca pensei que voltaria a frequentar esses corredores.


Um segundo filho sempre foi uma interrogação para mim. Não consegui me posicionar a respeito. Parte de mim ainda acalentava o sonho de usar aqueles dois vestidinhos que comprei em Macau (quando ainda grávida do Ryan). Outra parte entrava nos sonhos de mulheres próximas, que realmente queriam mais um bebê. Mas foi só quando me descobri grávida de novo que percebi que filho único era o que eu realmente queria.



Não foi suave aceitar esse presente. Sofri, chorei e passei mal como nunca antes. Agora, já no segundo trimestre é que sintomas e pensamentos se acalmaram.



Aqui, cercada de grávidas, pela primeira vez consegui me ver mãe de dois. Na espera por descobrir se serei mãe de mais um menininho ou vem aí uma garotinha, consigo sorrir. Se eu recebi esse presente, devo ser grata e agora concentro força e pensamento para que esse serzim seja perfeito, forte e saudável.

PS: It's a girl!!!

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Deserto

Amanheceu nublado, os quartos estão mais escuros mas ainda há luz. 

 Eu ilusiono uma tempestade se formando no horizonte.  

Abro a janela na esperança de uma brisa fresca, quase fria, mas um bafo quente me abraça... úmido, grudento. 

Fecho a janela, ligo o ar e lembro que aqui não chove, nem refresca.

sábado, 6 de agosto de 2016

Não há lugar como nossa casa

Cheguei a conclusão que não importa muito quantos dias fique por aqui, nunca será tempo o suficiente para matar as saudades que machucam tanto. Dessa vez foram quase dois meses e ainda assim, mal vi as pessoas mais de uma vez.

Foi bom voltar. Foi bom demorar para escrever. Foi bom passar esse tempo mais longo para poder me reconectar com minha terra natal. Foi bom me reencontrar.

Lá fora é fácil “esquecer” de ser brasileira. Olhar tudo sob a ótica européia e até, confesso, com um certo ar de superioridade. De longe é fácil enxergar os defeitos e a ausência cimenta preconceitos que por vezes nem são tão meus (ou nossos, referente a quem mora fora). 

Passar quinze dias por aqui só alimenta esse sentimento, pois afinal, 15 dias são visita, mais um turista em terra brasilis. Mas quase dois meses… daí se volta a ser brasileiro, já que se vive como brasileiro novamente.

Em dois meses fui a bancos, mercados, médicos, restaurantes, comércio em geral… peguei estrada, paguei pedágio, assisti jornal e novela, comi arroz com feijão, conversei muito com estranhos e eu admito que cada dia me enchia de alegria, tal como um bichinho que reencontra seu bando. Aqui, todos me entendem. Não há tradução truncada, não há diferença cultural… todos seguem a mesma lógica ilógica inerente a nós, brasileiros.

Quando lá fora eu costumava dizer que “o problema do Brasil são os brasileiros”. Retiro o que disse e agora me junto ao coro daqueles que defendem nosso povo como maior riqueza. Brasileiros são tududibom. Prestativos, solidários, amigáveis e principalmente, felizes. Há sempre um sorriso sincero (e não aquela coisa forçada que soa como “por mais dois dólares, senhora”).

Viajar com um bebê não é mole, mas aqui eu nem preciso pedir ajuda. É fila preferencial, atendimento prioritário, gente ajudando com malas e brinquedos voadores (atirados pelo Ryan, obviamente), alguém com um bom papo para me ajudar a distraí-lo. Isso não existe lá fora. Pra exemplificar, no aeroporto de Amsterdam eu, que estava carregando o R nos braços pedi ajuda para um funcionário do lugar só pra colocar minha mala grande no carrinho e ele se negou dizendo que estava ali tão somente para empurrar a cadeirante. Eu fiquei pasma (mas xinguei muito)!

Com isso, não digo que somos perfeitos, mas vejo que temos salvação. Desembarcar no Rio trouxe um sentimento duplo, já que ao mesmo tempo que me envergonha aquele aeroporto no estilo rodoviária, com instalações precárias e total desordem (e me dá raiva os banners dizendo quantos milhões foram gastos em coisas que não vi), por outro tinha o calor dos funcionários, que talvez nem vejam o quão ruim é aquilo ali, mas sempre tentam de alguma forma ajudar.

O jeitinho brasileiro, as gambiarras… são sim importantes e úteis, mas talvez, se andassem par a par com uma forma mais holandesa de pensar (direta e reta), conseguiríamos sair do caos que nós mesmos criamos.

Falta sim muita coisa. Atendentes em geral parecem ter memorizado uma forma de tratamento, o que já é um começo… contudo um tiquinho mais de profundidade no que se faz, de realmente conhecer setores, empresas, regras e procedimentos salvariam horas de enrolação. Precisamos aprender a ser mais eficazes e auto-suficientes. Irrita-me essa mania de por babás em todos os lugares (para senha do banco, para formar fila…). 

Eu gostaria de resolver minhas coisas sozinha, como faço aqui fora. Esse excesso de atravessadores só atrapalha (precisei ir no banco cinco vezes pra abrir uma conta e só consegui depois que passei por cima das meninas da senha).

Ao mesmo tempo me pergunto como um brasileiro comum poderia saber disso? De que há outras formas de resolver problemas, de que é possível pensar claramente? Nós não temos a facilidade dos europeus de cruzar fronteiras e conhecer culturas antigas. Estamos cercados por países irmãos na forma de pensar e agir. Não há uma troca produtiva nesse sentido.


O brasileiro conhece o mundo através da tv. E essa tv é péssima. E sim, esse texto termina assim mesmo, aberto para reflexão.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A Menina Estuprada

Senta que lá vem textão. Certamente foi o que você pensou, pois é exatamente essa frase que tinha em mente quando comecei a digitar. Mas fato é que nós precisamos falar sobre isso. Debater a exaustão, até nos sentirmos fortes, até nos fazermos ouvir.

Não há mulher nesse mundo que não tenha sido constrangida ao menos uma vez na sua vida. Não importa o país, a cultura, a posição social ou nível intelectual. O que me intriga é como? Como isso ainda pode acontecer? Estamos num momento histórico onde há a abertura para diálogo entre nós mulheres (homens são outro departamento e devem ser enfrentados encarados posteriormente, explico melhor abaixo).

Acho que a maioria aqui se indigna com a postura de - principalmente - mulheres questionando se houve ou não o estupro quando há um video mostrando uma menina de 16 anos desacordada sendo exposta e tocada por diversos homens. Oras, isso só não basta para despertar sua ira, nojo e náusea? Será que você não consegue se por no lugar daquela menina e sentir suas entranhas queimar por um ser humano ter sido vilipendiado?


Se não, há algo muito errado com você. Quem pensa que é, ó incolume paladino da pureza, para não se solidarizar?

Vamos voltar um pouquinho no tempo e analisar a sua história: diga-me que você nunca beijou um cara na balada com um hálito horrível só pra não ficar mal com sua "amiga" que estava com o amigo dele? Diga-me se você nunca teve que ouvir comentários repugnantes de colegas e engoliu calada? Aceitou uma carona de alguém que confiava pra ser "cobrada" no final com outras intenções? Nunca se sentiu perdida procurando em personagens o embasamento da sua postura (por isso a mídia é tão importante, como eu repito insistentemente), querendo confirmar ou reafirmar o aquilo que você acha certo?


Todos nós nos sentimos inseguros em dado momento. Isso é normal, já que estamos aqui para evoluir e o processo de crescer é pavimentado em inseguranças, erros e acertos. Também é normal e esperado que pessoas falarão de você, não importa qual seja a sua postura, simplesmente porque a fofoca é algo intrínseco no âmago humano. Isso dito, deve-se estar seguro(a) na filosofia de vida adotada e seguir firme com isso.

Mas como? Segurança só se constrói com muito treinamento (vide as Forças Especiais militares. Você realmente acha que eles já nasceram com o gene dos GI-JOES?). Treino, repetição... e deixa a sociedade falar. Em partes esse é um papel importante para estabelecer limites (ok, todos entendem o conceito de "além da conta"), manter todos num nível tolarável. Em partes é uma forma de se ver livre da sua própria frustração (falar mal da fulaninha que você inveja te traz uma certa alegria, admita). 

Tudo é parte do nosso processo de evolução e cabe a nós sermos melhores a cada dia. Eu tenho um filho (e aqui retomamos o ponto). Ele certamente aprenderá respeito, igualdade, tolerância e compaixão (por todos os seres). Meu irmão já é um desses homens "de nível superior", ainda que minha mãe tenha falhado bastante na igualdade na divisão de tarefas domésticas (tssss, mamis! Só eu com a obrigação de lavar louças e arrumar/limpar a casa? E eu ainda escuto o "mas eu mandei seu irmão fazer mas ele não me obedece"... kd disciplina?).

Onde quero chegar com isso? Você acha que um homem propriamente educado iria receber uma mensagem de texto com "mina dopada, bora passar o trem e arrombá-la" (como me faz mal escrever isso) e pensar, "Opa, demorou? Tô precisando 'comer' uma"???? Aliás, que tipo de animal é esse??? 

Se me permitem, porque eu também sou humana, a esses caras queria que passassem pelo mesmo mostrado no filme "The Girl with the Dragon Tattoo". Juro pelo que me é de mais sagrado que é esse mesmo o meu desejo. Vingança não é um sentimento nobre? Ah, eu sei... tampouco o que a originou.

Eu vejo meu filho e a nossa rotina. Eu sou tudo para ele. Quem provê comida, amor, com quem ele dorme e acorda, a destinarária dos seus sorrisos e gracinhas e por quem ele procura quando quer aconchego ou abrigo. Imagino que todos os bebês sejam assim. Em que ponto da vida isso muda para o cara que recebe a mensagem de "hoje é dia de estupro coletivo"?

Sei que meu bebê irá crescer, se rebelar, testar minha autoridade, fazer burrada, procurar seu espaço nesse mundo pelo velho binomio tentativa-e-erro. Mas perder o respeito? Creio que não. Eu fui uma adolescente rebelde. Dei um trabalho danado, questionava tudo e batia cabeça como ninguém. Errei muito e aprendi com cada erro. Contudo, nunca perdi o respeito pela minha mãe. Nunca desejei ferir alguém como aquela menina foi machucada (não estou me contradizendo... ação gera reação. Eu nunca quis iniciar mal, mas uma vez ele cometido, ainda tenho ganas de vingança. Não disse que sou perfeita).

Está em nossas mãos, como sempre, a mudança. Para tudo. Ao que me parece a revolução é geral, em todos os aspectos. E se os bons não se levantarem para ajudar nessa mudança, que não esperem que os maus aprendam por conta.